Cartas Expatriadas: Meu reencontro com o feijão

Cheguei no Rio de Janeiro e cansei de ouvir que esta é a cidade do amor. Fui conhecendo os bairros da Zona Sul e fiquei maravilhada com tantos lugares para curtir com meu marido, o pôr do sol, as vistas para o mar, os bares e restaurantes mais românticos. A paquera rola solta na cidade entre todas as idades e nada mais delicioso do que namorar na paisagem do Rio. Mas meu caso de amor aqui, confesso, é com o feijão.

E veja bem, eu nunca fui fã de feijão. Quando era criança, nunca comia. Depois de mudar para os Estados Unidos—onde ninguém tem panela de pressão e o feijão é vendido enlatado—o grão ficou ainda mais distante da minha dieta. Morando longe por tanto tempo, a saudade nunca esteve nessa maravilhosa fonte de ferro do brasileiro. No Rio de Janeiro, entretanto, essa história mudou.

O caldinho tem um aroma especial. Ele chega e parece que a fome chega junto com ele. As cebolinhas são cortadas a perfeição com o feijão preto carioca e o caldinho assume grandes estilos pelos bares da cidade. Das canequinhas rodeadas de torresmo ao copo americano, até um capuccino super chic, espumante, servido no restaurante Mauá no topo do Museu de Arte do Rio.

Depois de me contentar com o comentário dos cariocas de que o feijão servido em São Paulo (o carioquinha, irônico) é horrível, decidi provar todas as formas de feijão no Rio. E assim fui apresentada ao bolinho de feijoada. Ele tem o prato nacional completo dentro dele: bacon, couve, e o meu amado feijão. O bolinho pesadinho, bem acima da cota de calorias do dia, é aquele presente malvado dos bares cariocas.

Alguns bolinhos, a cumbuquinha quente acompanhando o prato do dia na hora do almoço, o caldinho de aperitivo… Quando o feijão no Rio fizer parte da sua vida, está na hora de ir à Santa Teresa para conhecer a rainha das feijoadas, um prato realmente digno do período imperial brasileiro nesta cidade. A feijoada do Bar do Mineiro não possui descrições “diferentonas”, não é light nem vegan, não acompanha nada inovador. Ela prepara a sua fome entre gritos para mesa e um bar cheio de gente que ama feijão tanto quanto você. Depois de algum tempo de espera, ela vem como Deus pediu para o brasileiro fazer e supera todas as expectativas. O arroz, a couve, a farofa, as laranjas, tudo é normal e saboroso como conhecemos. Mas o feijão do Rio já havia conquistado meu coração.

Por:Luisa Leme

FONTE: noblat.oglobo.globo.com


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